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Carta a Rubem Braga

  • Foto do escritor: Beto Scandiuzzi
    Beto Scandiuzzi
  • 30 de jan.
  • 3 min de leitura

Caro Rubem,

 

Numa das suas mais tenras e doces crônicas, você falava da sua preocupação com a possível extinção do seu rio Amarelo, amigo querido da infância, que passava no fundo da sua casa e onde se podia pescar piabas, carás e dourados. Lembrei-me dele e de você ao ver uma notícia de uma senhora que construiu a casa às margens do Amarelo lá no seu Cachoeiro. Disse que, apesar das imundícies que jogam no rio, parte coberto com prédios, cimento e asfalto, o rio vai resistindo. Disse mais: quando ocorrem temporais, suas águas se tornam caudalosas e em alguns dias, se estão límpidas, peixes pequenos se arriscam por elas.

Rubem, lá onde eu nasci, também passa um rio. Não, não é no fundo da minha casa, mas a distância, pequena, não impede de dizer que é o meu rio. Se chama Grande e é grande, daí talvez o seu nome: nasce no Alto do Mirantão, na serra da Mantiqueira, divide boa parte do estado de São Paulo com Minas e depois de 1.360 km se junta ao Paranaíba formando o rio Paraná.

Diferente do seu Amarelo, o meu Grande não corre o risco de morrer. Pelo menos por agora. Com afluentes importantes e vários reservatórios, não lhe falta água. Mas, caro Rubem, é com lágrimas nos olhos que te digo: não é mais o meu rio, pelo menos o rio da minha infância, cheio de corredeiras, poções profundos e serenos e onde se podia pescar dourados valentes, pintados, piaparas e cascudos. E lambaris de palmo. E que lindas eram as praias que se formavam na época da seca, entremeadas de lagoas de águas transparentes e que brilhavam ao sol enfeitando nossos domingos de piquenique.

A construção de várias represas nos últimos anos o deixou sem brilho, sem caráter, quase envergonhado. Os peixes de então desapareceram dominados por um selvagem amazônico de nome tucunaré, e as praias, ah as praias, Rubem, apenas uma lembrança linda na minha memória.

Outro dia, revirando uma gaveta encontrei no meio de uns recortes de jornais antigos, a notícia de um livro lançado nos anos 70 do século passado, cujo título em português é: “Enterrem meu coração na curva do rio”. O autor, o americano Dee Brown, conta a história ocorrida na segunda metade do século XIX quando da conquista sanguinária do velho oeste dos Estados Unidos e que levou praticamente à extinção da população indígena que ali vivia.

Caro Rubem, não sei se você leu o livro, eu não li, nem tampouco vi o filme, que se fez muitos anos depois. O que me chamou a atenção naquele recorte esquecido foi o seu título: “Enterrem meu coração na curva do rio”. Que grandeza, não é verdade Rubem? E ainda mais quando define o lugar, não um lugar qualquer, na curva do rio.

Como você, Rubem, acho que todo escritor tem ou teve um rio só para chamar de seu e sobre ele escrevem ou escreveram páginas e páginas de amor e carinho, o mais famoso deles um português de nome Fernando Pessoa e o seu rio Tejo, o mais belo que corria por sua aldeia. Morto em 1935 seus restos mortais estão depositados no Mosteiro dos Jerônimos, a metros do seu Tejo, na sua Lisboa antiga onde nasceu e passou a maior parte da sua existência.

Sei que por vontade sua, Rubem, você foi cremado, suas cinzas foram jogadas no rio Itapemirim, também tão amigo seu e que logo adiante da sua casa recebia as águas do seu Amarelo; sem cerimônia, não sei se numa curva, mas num lugar que somente sua irmã sabia.

Já no meu caso, Rubem, não será necessária nenhuma vontade póstuma. Todos sabem, desde sempre, que meu coração sempre estará nas margens do meu rio Grande num lugar mais lindo que o próprio nome sugere: Deus me Livre.

 

N. do A. – homenagem a Rubem Braga, “o Sabiá da crônica”, pelos 25 anos de sua morte.


 
 
 

1 comentário

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Paulo Mercio
30 de jan.
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Também lembrei de algumas situações, principalmente das praias, o praião. Tive o privilégio de desfrutar. Belo texto meu caro. Grande Beto, Grande Rio, Rio Grande. Grande abraço


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