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O escritor

Foto do escritor: Beto Scandiuzzi
Beto Scandiuzzi
30 de abr.
2 min de leitura

Apareceu na minha vista depois que o vizinho cortou o abacateiro que estava no fundo do quintal e que eu cumprimentava cada manhã da minha janela. É uma casinha simples, meia-água, telhas de zinco, dois andares. O de cima, que eu posso divisar, tem dois quartos com uma pequena sacada, separados por outro cômodo, estreito, com uma janelinha no alto, e que parece um banheiro. Tudo meio improvisado, cada parede de uma cor, aqui e ali sem reboco, e que aparentemente vão sendo reformadas aos poucos.

Numa dessas manhãs, quando abri a janela, um senhor ocupava uma das sacadas. Sentado numa mesinha, escrevia. Pelo menos era o que eu podia imaginar à distância. Meio careca, vestido como se fosse sair, camisa de manga comprida enxadrezada e fechada até o pescoço, óculos na ponta do nariz, aparentava uns setenta e poucos anos. Nessa primeira manhã em que eu o vi, foi impossível não ficar o bisbilhotando por um bom tempo.

Escrevia, escrevia, de vez em quando levantava a cabeça como a tomar fôlego ou colocar as ideias em ordem. Às vezes consultava um livro, coçava o bigode e voltava a escrever. Outras vezes, levantava o papel e parecia reler o que havia escrito. Sem nenhuma pressa. Foi assim enquanto eu estive ali na janela, observando-o sem que ele me pudesse ver.

Quando voltei mais tarde, ele não estava, porém em questão de segundos chegou com um copo na mão, que eu imaginava ser de café e que ele sorvia em goles demorados, debruçado na gradezinha da sacada, olhando para o alto como quem checa se vai chover. Logo, sentou-se na mesinha, ajeitou as coisas sobre ela, tomou outro gole, e voltou a escrever.

Por todas as manhãs seguintes, sem falta, o ritual se repetiu, sem que lhe importasse o clima, o vento, o frio, em silêncio e profunda solidão. Sentava e escrevia. Eu olhava aquilo e ficava pensando: que tanto escreve, o que será que escreve?

De repente, numa certa manhã, não apareceu, na outra também. E não mais deu as caras. Senti a sua ausência. Curioso, fui conferir e bati na porta da casa da frente, em cujo quintal ficava a casinha do escritor. Me atendeu um jovem e, perguntado, disse que o senhorzinho alugava a casa e que tinha morrido numa dessas noites passadas. Disse que morava sozinho e que ninguém veio reclamar o corpo.

Foi então que eu perguntei se havia deixado alguns escritos porque, expliquei, eu o via sempre escrevendo na sacada. O jovem arregalou os olhos e disse: “não, não achamos nada, apenas uma folha de papel onde estava escrito, bem grande, VIVA A VIDA.”

Me lembrei na hora, era o mesmo que havia escrito num bilhete a seu filho, Rubem Braga, na véspera da sua morte.

Viva a vida!

 

N.A.: Esta crônica integra o livro Sinais do Mundo, coletânea resultante de um concurso literário promovido pelo Instituto Rubem Alves em parceria com a Editora Farol das Letras.

 

            José Humberto Scandiuzzi


 
 
 

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