Agosto de barulho e lembranças

O barulho ensurdecedor de uma obra na avenida em frente ao edifício onde moro me derruba da cama mais cedo que de costume. Quando eu era moleque, se dizia que agosto era o mês do cachorro louco. No lugarejo onde nasci e vivi por muitos anos, havia muitos cachorros que vagavam pelas ruas de terra. Um amigo da Argentina me telefona e informa que Buenos Aires está gelada. Sempre que ele me liga com esse tipo de informação, me coloco em defesa: dias depois, o frio chega por aqui.
As obras da avenida são parte de um piscinão que está sendo construído para evitar alagamentos e enchentes. Nesse mês de pouca chuva temos por causa das obras muita poeira que se junta ao vento que é típico de agosto. Às vezes, o amigo argentino comenta que, além do frio, a cidade está triste, com os jacarandás e ipês pelados como fantasmas à espera da primavera.
Em algumas manhãs, antes das obras, acordava com o canto dos pássaros. O do bem-te-vi e do sabiá-laranjeira são os que mais gosto. Minha mãe tinha uma certa implicância com agosto, não pelos cachorros loucos, mas pelo vento que trazia poeira e sujava seus lençóis brancos, anilados, secando nos varais. Os cachorros do meu lugarejo eram, na maioria, magros e vira-latas. Tinham donos e casas, mas o costume era criá-los soltos na rua. Eu também tinha um cachorro. Chamava-se Sultão e não era vira-lata.
Dizem que a obra aqui em frente pode demorar meses. Eles bem que poderiam começar a trabalhar mais tarde. Eu poderia dormir um pouco mais. Outro dia, indo à padaria com meu neto, mostrei-lhe um bem-te-vi cantando. Ele ficou admirado com a beleza do pássaro e do canto. Ele perguntou se as pombas cantam. Respondi que sim, feio, mas cantam. Minha mãe lavava a roupa na mão. Se a roupa estava muito suja, tinha que ser fervida num velho tacho de ferro herança da minha avó. E se o vento apertava, ela corria para recolher os lençóis antes que a poeira os sujasse.
A obra continua. O barulho entra pela janela, a poeira entra pelas frestas. Penso em minha mãe, nos cachorros do lugarejo, em Sultão, no canto dos pássaros, no meu neto e no amigo argentino esperando a primavera. Aqui, os cachorros passeiam pelas ruas, limpos, penteados e em coleiras. Hoje em dia, agosto talvez esteja mais para um mês de lembranças do que de cachorro louco.
Lembro de Sultão me esperando no portão de casa quando eu chegava da escola. Dormia na porta da cozinha, debaixo de um pé de figo. Quando alguém chegava, levantava a cabeça, olhava e voltava a dormir, como se já conhecesse todo mundo. Às vezes, penso que o mundo mudou mais do que eu possa perceber. Minha mãe se preocupava com a poeira nos lençóis, eu me incomodo com o ruído que entra pela janela. Antes, eu acordava com o canto dos pássaros; agora, acordo com o barulho das máquinas.
Hoje de manhã, um tucano, com seu bicão amarelo, espiava o movimento lá do topo do prédio vizinho. Lá fora, na avenida, os homens continuam trabalhando. Tomara que o piscinão funcione quando a chuva chegar. E tomara também que amanhã comecem a trabalhar um pouco mais tarde.


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