As chuteiras cor-de-rosa


Já nos primeiros jogos do Mundial deste ano, algumas novidades chamaram minha atenção. Entre elas, as novas regras para evitar a famosa cera, as pausas para hidratação e um detalhe aparentemente banal: quase todos os jogadores usam chuteiras cor-de-rosa. Imaginei que pudesse ser uma iniciativa voltada a reduzir associações estereotipadas entre gênero e cor. Não era. Trata-se, na verdade, de uma ação de marketing entre fabricantes de materiais esportivos.
Posso dizer que acompanho, com algum grau de entendimento e capacidade de observação, o futebol desde a Copa de 1970, no México, a primeira transmitida pela televisão para o Brasil. Até então, acompanhávamos as partidas pelo rádio, e aquilo que víamos era construído pela imaginação, alimentada pelas descrições dos narradores imortalizados na minha memória.
Outro dia, aproveitando uma pausa da chuva nesse nosso início de inverno, encontrei com uns amigos aqui na padaria da esquina, todos veteranos como eu e de muitas copas. E o assunto principal, deixando de lado as chances do hexa da nossa seleção, não poderia ser outro: as chuteiras cor-de-rosa. Um deles, mais intelectual, logo destacou que, ao longo dessas décadas, não mudaram apenas as regras, mas também a sociedade e a forma de transmitir o espetáculo. Mudou também a vestimenta dos jogadores, completou. E, cruzeirense fanático, logo se lembrou da surpresa que causou a camisa amarela do goleiro Raul, quebrando a tradição do preto ou cinza quase obrigatórios para os goleiros da época. Peguei o seu gancho e me lembrei da chuteira branca do Casagrande, jogador do Corinthians, chamando a atenção quando a regra era usar chuteiras pretas. Um outro se lembrou dos uniformes leves no lugar das pesadas camisas de algodão que se encharcavam em dias de chuva e as chuteiras de couro duro que deram espaço a modelos com materiais sintéticos avançados, mais leves, confortáveis. E, finalmente, um outro que até então escutava, paciente, se lembrou dos goleiros, que para se protegerem dos gramados ruins de então usavam joelheiras, cotoveleiras, ombreiras, camisas que desapareceram do mercado.
Curiosamente, muitas dessas novidades trouxeram estranheza quando surgiram. A camisa amarela de Raul parecia ousadia demais causando enorme resistência da imprensa, dos torcedores e da própria família. A chuteira branca do Casagrande chamava atenção justamente por fugir do padrão, sendo quase impedido de jogar pelo árbitro do jogo. Com o tempo, porém, aquilo que parecia extravagante se tornou comum e acabou sendo incorporado ao futebol. Talvez esteja acontecendo a mesma coisa agora com as chuteiras cor-de-rosa. Na próxima copa é possível que eu e meus amigos estejamos conversando sobre outras coisas sem se lembrar delas.
Ao final, café no peito, estávamos todos de acordo de que há uma diferença importante entre as mudanças de ontem e as de hoje. Muitas das alterações do passado vieram do atrevimento de alguns jogadores ou buscavam melhorar o desempenho ou a segurança dos atletas. Atualmente, parte das inovações também atende às exigências do mercado. As chuteiras cor-de-rosa são um exemplo disso: além de calçar os jogadores, precisam gerar comentários nas redes sociais e reforçar a identidade das marcas. Nossa conversa de padaria talvez fosse parte desse jogo. Se bem que, aqui em casa, a tática não está funcionando: até agora nenhum neto pediu a tal chuteira.

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Mais uma vez o Beto mostra toda a sua sensibilidade e sabedoria para escrever bem e sobre os assuntos mais importantes do momento como a COPA do MUNDO.
Oi Beto, blz? O meu neto de 6 anos já tinha uma chuteira cor de rosa mesmo antes da copa. Veja que ele tem visão de jogo. Hahaha. Grande abraço