O trem da madrugada
- Beto Scandiuzzi

- 26 de jun.
- 3 min de leitura

Noite dessas me despertei surpreendido com um ruído distante de um trem. Meio dormido, agucei os ouvidos e no silêncio profundo da madrugada escutei nítido, claro, contínuo o ruído do trem que parecia seguir veloz cruzando a cidade. De vez em quando tocava o apito, prolongado, rouco, eu não sei se a guisa de regulamento ou se para espantar algum fantasma distraído no caminho. Interessante que há anos vivendo por aqui nunca havia escutado o trem talvez porque antes, jovem, sono pesado, não me despertava pelas madrugadas, hábito que os anos e a idade me trouxeram.
Enquanto escutava o barulho do trem fiquei pensando se não estava sonhando. Muitas vezes acontece de ouvir a chuva, umas chuvas intensas, de vento, que fazem chiar as dobradiças das janelas, envergam as árvores, trazem raios e trovões e parecem durar horas. Para constatar de manhã, surpreso, que não choveu nada, que o asfalto está seco, e que foi tudo ilusão e sonho. A madrugada tem dessas coisas: mistura lembrança com invenção e faz a gente duvidar do que ouviu e até do que viveu.
Mas dessa vez não, parecia verdade, e em seguida dormi feliz com aquele barulho antigo do trem. De manhã, quando me despertei, a primeira coisa de que me lembrei foi do trem da madrugada que me levou a outros trens, mais lerdos, mais antigos, que se alimentavam de água e lenha, eram conhecidos como “maria fumaça” e passavam dia e noite no fundo do quintal da casa onde nasci.
Lembro que, durante o dia, eu corria para o quintal só para vê-los passar cuspindo faísca e tingindo o céu com fumaça escura, o ranger das rodas de ferro em atrito com o trilho e as pessoas nas janelas entretidas com a paisagem. E quando passavam, passavam tão próximos, tão próximos, faziam tanto ruído que, à noite, era impossível não acordar. Na verdade, já nos despertávamos quando faziam a enorme curva à esquerda contornando a fazenda do avô Manoel, quando tocavam o apito numa encruzilhada que havia ao lado da casa do tio Lourenço, tomavam fôlego e se preparavam para subir os poucos quilômetros até a estação do lugarejo onde vivíamos.
Quando passavam no fundo da nossa casa, já a poucos metros da estação, pareciam cansados, com os bofes de fora, e eu na minha cama, ainda menino, fechava os olhos, virava de lado e seguia dormindo tranquilo. Os trens eram então parte da nossa vida, como o cheiro do café vindo da cozinha ao amanhecer ou o cantar insistente dos galos antes do sol nascer. Só muito tempo depois entendi que aquelas coisas aparentemente comuns eram justamente as que davam sentido e permanência aos dias.
De vez em quando aparece algum livro ou filme nos lembrando de que estamos ficando velhos e nos falta fazer algumas coisas importantes antes de dobrar o cabo da Boa Esperança. Não escapo da armadilha e penso, melancolicamente, no tempo que vai se dizimando, nas coisas que não fiz ou que deveria repetir. Subir o Monte Fuji, visitar a Muralha da China? Não! Coisas mais simples como estar deitado na cama na noite escura e silenciosa na casa da minha infância ouvindo o trem cansado subindo em direção à estação do lugarejo onde vivíamos. Mas em seguida me recordo que está a casa, mas está vazia, já não está o trem, já não está a estação, e principalmente já não está o menino que eu era.

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Senti o balanço desse trem ao ler . Me lembrei que também vivi isso
Grande Beto. Parabéns
Que leitura gostosa de se ler !!! Viajei com você por esse caminho que não mais existe !!! Parabéns meu irmão querido !