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Depois do apito final

  • Foto do escritor: Beto Scandiuzzi
    Beto Scandiuzzi
  • há 14 horas
  • 2 min de leitura

Nem bem o juiz apita o fim do jogo, desligo a TV e saio para caminhar. A derrota da seleção para os noruegueses estava confirmada e o sonho do hexa adiado para a próxima copa. Passa pouco das 21h e, apesar do inverno no calendário, não faz frio. Dobro à direita e sigo em direção à padaria me lembrando do aviso colocado de manhã de que estaria aberta logo após o jogo.

Enquanto caminho, carros passam buzinando e foguetes espocam como se tivéssemos ganhado. Penso que os da buzina devem estar irritados com o resultado e os dos foguetes sabem que não vale a pena guardá-los para o próximo mundial. Aos poucos a avenida vai voltando ao normal. Um cachorro late assustado com os rojões, um entregador passa apressado na moto e um senhor passeia com o cachorro olhando o celular como se fosse só mais outro dia. E sigo caminhando já imaginando os comentários, os tantos entendidos e, não entendidos também, tentando explicar a derrota, ora culpando um jogador, ora outro, o juiz, quase todos de acordo de que o maior culpado é o técnico. “Sempre sobra pra ele”, já dizia meu pai que, de futebol entendia pouco.

Entro na padaria quase vazia e me sento em frente à janela. Atrás do balcão, a moça que me conhece de longa data pergunta se o jogo foi ruim. Respondo que foi para o Brasil. Ela sorri, como quem não viu um minuto da partida e só queria puxar conversa. Peço uma água e fico olhando a TV ligada sem som mostrando os torcedores noruegueses remando imitando vikings. Uma outra TV ao lado mostra os jogadores da seleção brasileira deixando o estádio cabisbaixos em direção ao aeroporto. Me pego pensando que poucos voltarão de fato ao Brasil. A vida deles já acontece em outros países.

Olho para a janela. A banca de jornal que, normalmente permanecia aberta até altas horas da noite vendendo figurinhas, fechou. A farmácia em frente segue aberta, afinal de remédios sempre se necessita com derrotas ou vitórias. Do outro lado da avenida noto um casal sentado na sarjeta. São os dois que, diariamente, nas últimas semanas estavam ali vendendo camisas da seleção a preços populares. Ao lado dois sacos pretos que, imagino, estão cheios de camisas que não foram vendidas e não serão. Até pela manhã eles mal davam conta do movimento. Criança puxava o pai pela mão pedindo uma camisa, gente experimentava na calçada, alguém sempre perguntava se tinha tamanho G. Agora os poucos que passam por ali nem sequer olham para eles.

A moça avisa que a padaria está fechando. Pago a conta e olho novamente para o outro lado da avenida. O casal continua sentado na sarjeta, desacorçoados, ao lado dos dois sacos pretos cheios de camisas da seleção. Um deles abre um dos sacos, ajeita algumas camisas e o fecha de novo, como quem se agarra à esperança de vendê-las no dia seguinte. O outro permanece olhando o pouco movimento da avenida, sem procurar ou esperar clientes. Aguardo na porta um instante antes de sair. Eles se levantam, dividem o peso entre os dois e seguem caminhando devagar, sem trocar palavra. O jogo tinha acabado para todo mundo. Para eles, a noite ainda estava começando.


 
 
 

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