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Da sacada

Foto do escritor: Beto Scandiuzzi
Beto Scandiuzzi
há 37 minutos
2 min de leitura

As obras da avenida para construir o piscinão continuam, mas, por sorte, já não me acordam antes da hora. Acabei me acostumando com o barulho das máquinas, com o entra e sai dos caminhões, com os homens de capacete e uniforme colorido que andam de um lado para outro. Um deles, que controla o trânsito, já me conhece.

Tenho o hábito de me sentar na sacada; de preferência, logo depois do almoço e à tardezinha. Posso tomar sol, observar o movimento, relaxar ou ler. Ou simplesmente ficar ali distraído, vendo o tempo passar. Gosto também de curtir as plantas que me rodeiam, conferir que nasceu um gerânio vermelho e que um hibisco amarelo se mantém esbelto desde o dia anterior.

Ainda repercute a notícia do ciclone extratropical que passou por aqui, perto de casa. Destelhou residências, derrubou árvores e assustou moradores. A chuva intensa que veio com os ventos não serviu para testar o piscinão, ainda em construção. O “extratropical” do ciclone assusta, mas o jornal diz serem comuns, especialmente no Sul e no litoral.

Fico pensando nesse clima que anda meio descontrolado. Chove quando não deveria, venta quando não se espera, faz calor fora de hora. Em algum lugar sempre há uma enchente, uma seca, um incêndio, uma tempestade, um terremoto. O mundo resolveu abandonar o calendário e fazer o tempo à sua maneira.

Num intervalo, em que eu não estava na sacada, apareceu um visitante. Um tucano. Não é a primeira vez. Sentou-se no parapeito e ficou olhando para fora. Olhou para um lado, para outro, movendo aquele bicão, os olhos arregalados, como que desconfiado. Numa dessas, deu a volta, girou aquele corpão preto, comeu os brotos de uma orquídea e se foi. O gerânio vermelho e o hibisco amarelo se salvaram.

E então chega a tardezinha. Me acomodo outra vez na sacada. Os homens de capacete e uniforme colorido já se foram. As máquinas em silêncio. O barulho que chega agora é de carros, pessoas que voltam para casa, motos fazendo entregas. As cores começam a mudar, a temperatura baixa um pouco e, acima dos prédios, uma luz aparece. Primeiro discreta, quase confundida com as últimas claridades do dia. Depois vai ganhando força, intensidade, até se tornar impossível não reparar nela. Exuberante, muito mais brilhante do que tudo ao redor, parece uma presença de outro mundo.

Penso num ser extraterrestre, enquanto o celular me ajuda e me confirma que é Vênus, não uma estrela, um planeta, o que mais se aproxima da órbita da Terra. Enquanto a avenida escurece sem que eu perceba, volto o olhar para ele, tão distante, indiferente e magnífico, surgindo no fim do dia, justamente quando o inverno se despede e entramos na primavera.

Brilha tanto porque suas nuvens refletem 75% da luz do sol, é o que dizem os astrônomos. Mas, sentado na sacada, prefiro pensar que Vênus veio lembrar que, apesar das obras, dos ciclones, das enchentes e das guerras, ainda existe alguma exuberância no mundo.

Então olho outra vez para Vênus. Depois, para o gerânio vermelho e o hibisco amarelo que se salvaram do tucano. Por enquanto!


 
 
 

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