Montevidéu, 1934
- Beto Scandiuzzi

- 6 de dez. de 2018
- 3 min de leitura
Cruzando o rio de La Plata, desde Buenos Aires, cheguei a Montevidéu numa tarde ensolarada do verão de 1934. Um vento suave e morno acariciava as águas barrentas do rio que corria sonolento em direção ao mar. No porto, barcos com velas largas e coloridas se moviam timidamente se deixando levar por ondas crespas que passavam e se rebentavam no paredão de madeira do cais. Sobre a plataforma, alguns carregadores de cargas, vestidos em macacões azuis e alpargatas marrom, esperavam tranquilos que aparecesse algum cliente.
Montevidéu me recebe com seu ar europeu e aristocrático, que a fazia uma das mais bonitas cidades sul-americanas da época. Hospedo-me no hotel Carrasco, de arquitetura francesa, rodeado por jardins floridos junto à costa norte do rio. A diária é cara e minhas poucas economias mal alcançam para uns poucos dias.
Estou ansioso. A busca por Violeta me havia levado de Porto Alegre a Buenos Aires numa busca inútil e triste. Não a podia esquecer desde o dia em que se foi, deixando um breve e lacônico aviso. Montevidéu era minha última esperança de encontrá-la.
Na manhã seguinte me desperto bem cedo. Deixo o hotel após tomar um café de passagem. Violeta não me sai da cabeça. Uma pensão na calle Paraguay é a única pista que tenho dela. Lentamente, ando pela avenida 18 de Julho, que a estas horas da manhã ainda está vazia. Alguns poucos homens de paletó e gravata e o inseparável chapéu de feltro escuro esperam a passagem do bonde.
Próximo à plaza de Cachanga noto que um papel cai do bolso de um homem que caminha à minha frente em passos lentos e cadenciados. Um documento de identidade. Uma rápida olhada e, para minha surpresa, aí estava a foto e o nome do grande poeta espanhol Federico Garcia Lorca. Apresso o passo e lhe toco o ombro. Ele se vira, me olha e imediatamente lhe mostro o papel.
– O senhor o perdeu – digo-lhe rapidamente no meu pobre espanhol misturado a português.
Olha-me surpreso. Em seguida passa as mãos pelos bolsos do paletó e certifica-se de que realmente nada havia dentro. Olha o papel e, com um sorriso tímido, me diz:
– Muito obrigado. Me salvaste de um lindo problema. Como poderia te agradecer? Posso te oferecer um café?
Reluto em aceitar. Tenho que encontrar Violeta. Mas a possibilidade de dividir um café com o grande poeta me seduz. Explico-lhe que sou brasileiro e que estou de passagem. Seguimos pela avenida e poucos metros adiante entramos no Café Facal com suas mesinhas quadradas e lindas cortinas floridas. Algumas poucas pessoas liam sonolentas o jornal, um hábito comum por estas terras. Escolhemos uma mesinha junto à janela.
Enquanto esperamos por um “cortado”, me pergunta sobre o Brasil, do prazer que teria em conhecer o país de Jorge Amado.
– Sabe – me comenta numa voz pausada e firme – que tão pouco conheço o Chile do meu grande amigo Neruda.
Disse-me que havia chegado de Buenos Aires e estava em Montevidéu por uns poucos dias visitando amigos uruguaios. A conversa termina quando terminamos o café. Levanta-se, outra vez me agradece e nos despedimos com um até logo. Que seria um até nunca mais! Dias depois leio no jornal que os amigos o haviam despedido no porto em seu regresso a Buenos Aires. Antes, havia oferecido no Ateneo algumas conferencias deixando uma plateia boquiaberta ao recitar seus famosos poemas.
Pouco tempo depois, eu também deixei Montevidéu. Sem qualquer notícia de Violeta. Definitivamente, nunca mais a encontraria. Alguns anos mais tarde o mundo se comoveria ante o cruel assassinato de Federico, uma das primeiras vítimas da guerra civil espanhola.

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