Olimpíadas de Inverno 2018

Sentado num tamborete de madeira no seu boteco favorito ao lado do sindicato, bermudão largo de náilon preto, Havaianas gastas, camisa vermelha desabotoada no peito, ele olha a notícia de primeira página no Diário do Grande ABC e, irritado, dá um soco na mesa de plástico, derrubando copos, pedras de dominó, cinzeiros, garrafas vazias, cartas de baralho:
– Isto é um absurdo – exclama enquanto limpa com as costas da mão umas lágrimas de ressaca que teimam em escorrer pelo rosto barbudo.
Seus companheiros de mesa e de truco o olham assustados sem coragem de magoá-lo com perguntas impertinentes.
– Vocês viram? – pergunta ao mesmo tempo em que toma um longo trago de uma branquinha com gengibre e pimenta cambuci. E prossegue:
– Estes russos divulgaram o quadro final de medalhas da Olimpíada de Inverno 2014 e se esqueceram do Brasil, e até dos nossos amigos bolivarianos. Isso é uma perseguição inaceitável.
Os companheiros à volta se entreolham perplexos e um deles, depois de uma pequena pausa, se anima a explicar ao chefe que não havia qualquer problema com os russos, os sul-americanos é que não ganharam nenhuma medalha e que, a bem da verdade, estiveram bem longe delas. E completa se afastando da mirada do chefe:
– Éramos poucos, chefe, cabíamos todos numa Kombi, incluindo os amigos bolivarianos, e sem experiência nestes esportes de neve.
– Ah, mas isto não vai ficar assim, vamos dar o troco neles. Se já realizamos o mundial de futebol da FIFA 2014, vamos fazer a Olimpíada 2016 no Rio, vamos também pela Olimpíada de Inverno 2018. Ligue já para a presidente para incluir no PAC, urgente.
Faz-se um silêncio profundo na mesa, escutam-se os mosquitos voando. Até que um outro companheiro, trêmulo e gaguejando diz:
– Mas, chefe, aqui não tem neve!
– E quem te disse que precisamos de neve para a Olimpíada? Já tenho tudo pensado. A sede dos jogos será em Garanhuns. Ora que dúvida, se Garanhuns é conhecida como a Suíça pernambucana? La tem o monte Magano, ideal para os saltos, uns terreiros de forró, sem falar que o rio Mundaú se congela no inverno e fica bom para patinar. E caatinga é o que não falta para as outras modalidades. É só a gente pintar tudo de alvaiade, eles pensam que é neve e está tudo resolvido.
Faz uma pausa, esboça um leve sorriso, ele próprio admirado da sua genialidade. Dá uma outra bicada na branquinha, mira os companheiros, um a um, e completa:
– E tem mais, vamos acrescentar umas novas modalidades que serão medalhas na certa, anotem aí, briga de galo, cuspe a distância, porrinha, palito, corrida de bode e carrinho de rolimã, tudo na neve como manda o regulamento.
E com a mão no queixo e o olhar perdido no horizonte nublado, ele que já contrariou a Bíblia, o vernáculo, a natureza, se prepara agora para contrariar a Zeus, o rei dos deuses olímpicos.
PS: Essa crônica foi escrita em 2014 quando o governo era outro e Lava Jato era um lugar para lavar carro. Como sabemos, a Olimpíada de Inverno 2018 se realizou na Coreia do Sul e o Brasil participou com nove atletas. Não ganhou nenhuma medalha.

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